
Biodiesel familiar e
agroindústria
Entrevista especial com Francisco Alves
O etanol e o biodiesel são os assuntos em voga quando se trata da economia
brasileira atual. E a grande preocupação, em relação à produção de biodiesel,
vem dos pequenos agricultores que enxergam, no cultivo das matérias-primas desta
fonte alternativa de energia, uma forma de ganhar seu pão diário. Com isso,
criou-se um programa que incentiva a produção de diesel a partir de óleos
vegetais e que tem sido usado para promover a agricultura familiar. Porém, este
programa pode seguir a linha que hoje a produção do etanol vem trilhando, ou
seja, sua produção e rumos estão, cada vez mais, passando às mãos dos grandes
empresários do agronegócio. No caso do biodiesel, os agroindustriais passam por
uma crise na produção e exportação da soja e se organizam para que o Governo
opte pela produção do biodiesel por meio do seu produto, a soja, a oleaginosa,
que menos produz óleo. Esta mesma preocupação tem o professor Francisco Alves,
da Ufscar. Por isso, a IHU On-Line entrevistou-o, por telefone. Já no início da
conversa, Francisco avisa que há uma guerra no que envolve o biodiesel familiar
e a agroindústria e ressalta "A crise está no interior do governo".
Francisco Alves formou-se economista pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Em seu mestrado, realizado na mesma universidade, trabalhou questões
como fatores do crescimento das cidades. Lidando sempre com temas como relações
de trabalho, desenvolvimento sustentável, movimentos sociais e economia
solidária, fez seu doutorado, na Unicamp, em ciências econômicas, com foco nas
lutas dos trabalhadores assalariados rurais.
Atualmente, Francisco Alves é professor na Universidade Federal de São Carlos,
em São Paulo.
IHU On-Line - Quais são os maiores entraves do biodiesel familiar e da
agroindústria?
Francisco Alves - Há uma guerra entre o biodiesel pensado pelo Ministério do
Desenvolvimento Rural e Reforma Agrária e o biodiesel pensado pelo Ministério da
Agricultura. A crise está no interior do governo. O pensado pelo Ministério da
Agricultura tem como fundamento fortalecer e arranjar uma alternativa à queda de
preço da soja no mercado externo. O outro biodiesel é o que vê a possibilidade
do pequeno produtor familiar produzir um produto que tenha mercado garantido. A
Abag - Associação Brasileira de Agronegócio, da qual fazia parte o ex-ministro
da agricultura, Roberto Rodrigues (1), está interessada em dar uma solução aos
sojicultores. A soja vem caindo de preço no mercado externo já faz algum tempo
e, portanto, está reduzindo a lucratividade dos sojicultores. Então, uma das
possibilidades é, no lugar de se utilizar soja para a venda direta no mercado
externo, utilizá-la para produção de biodiesel, que pode ser produzido a partir
de qualquer óleo. Basta ter uma fonte de óleo qualquer misturada com álcool na
proporção de um litro de óleo para um terço de álcool para se obter biodiesel. O
problema é o seguinte: a soja é um dos produtos que têm a mais baixa relação de
óleo, produzindo menos óleo do que outras culturas.
Ela produz um terço do que produz a mamona (2) e um quarto do que produz o dendê
(3). O dendê e a mamona podem ser produzidos pelos pequenos agricultores. Então,
se o Estado passa a assumir a compra pelos menos de parte do excedente de soja
para produção de biodiesel, ele perde um mercado que renderia mais. É o mesmo
efeito que o Pro-Álcool (4) teve na década de 1970 para a crise de preço do
açúcar. Ele foi criado para resolver o problema da queda de preço internacional
do açúcar no mercado externo. Então, o açúcar despencou no mercado externo, os
usineiros bateram às portas do Estado para arranjar um jeito de resolver o seu
problema financeiro. A alternativa foi o Pró-Álcool, ou seja, as usinas, além de
produzir açúcar, vão produzir álcool para venda no mercado interno fazendo
frente à subida de preço do petróleo. Ele foi vendido como uma alternativa
brasileira à crise do petróleo, mas, na verdade, foi o resultado da crise dos
preços do açúcar no mercado externo. Os preços do açúcar despencam; você cria o
álcool e cria preço para o álcool, cria demandas para o álcool, porque ele vira
energia, introduzindo-o na matriz energética, misturando-o à gasolina e,
portanto, proporciona preço e demanda para carros que são movidos a álcool.
Portanto, as usinas, no lugar de produzirem açúcar, produzem álcool e, para
conseguirem isso, conseguem vultosos incentivos do Estado.
O biodiesel de soja é exatamente isso, ou seja, uma forma de resolver os graves
problemas de caixa dos produtores de soja provocados pela crise de preço
internacional da soja. De um lado, uma parte do Estado deseja que o biodiesel
seja fundamentalmente da agricultura familiar no sentido de criar alternativa de
produção e mercado para os produtores familiares. Trata-se de uma antiga
reivindicação dos defensores da reforma agrária. Por outro lado, os sojicultores,
o pessoal do agronegócio, defendem que o biodiesel seja fundamentalmente da soja
para resolver o problema de preço dos sojicultores. A Miriam Leitão, dia desses,
escreveu um artigo primoroso sobre isso, em que ela dizia que durante muito
tempo os sojicultores ganharam uma grana fantástica, desmataram a Amazônia,
produziram muita soja e eram principalmente gaúchos. Você encontra gaúchos hoje
em qualquer lugar do Brasil, principalmente no Centro Oeste, onde foram levar
suas tecnologias de produção. Durante muito tempo, eles ganharam muita grana e
agora pararam por causa da crise internacional da soja. Bom, nesse momento eles
chamam o Estado para salvá-los, e é nessa história que estamos envolvidos hoje.
IHU On-Line - Qual é a solução do governo?
Francisco Alves - O governo está tentando dar uma no cravo e outra na ferradura,
ao afirmar que o biodiesel é um programa fundamentalmente da agricultura
familiar. Ele admite que no Nordeste a produção de biodiesel virá
fundamentalmente da agricultura familiar e no Sul virá da soja. Eu fico pensando
o seguinte: quando você coloca a soja e seus produtores com toda capitalização
que eles têm frente aos produtores familiares, quem vai levar vantagem nessa
queda de braço? A história tem mostrado que quem sempre tem ganhado nessa queda
de braço são os grandes proprietários, mais capitalizados. O Pro-Álcool, quando
nasceu, foi pensado também em ser produzido a partir de microdestilarias,
inclusive utilizando produtos da agricultura familiar no caso a mandioca. O que
se produziu no Brasil de álcool vindo da mandioca? O que se produziu no Brasil
de álcool vindo de microdestilarias? Coisa nenhuma. De novo a gente corre o
risco de ter os pequenos produtores, os primeiros pensados nessa alternativa do
biodiesel, sendo colocados de fora. Eu sou um defensor do biodiesel. Agora, eu
acho que o governo tem que deixar claro quem ele pretende beneficiar com o
biodiesel. Se ele tentar beneficiar os dois vai fazer a mesma besteira que fez
no Pró-Álcool.
IHU On-Line - E como o senhor acha que o governo pode intervir a favor dos
produtores de matérias-primas do biodiesel?
Francisco Alves - À medida que esse biocombustível for sendo comprado pela
Petrobras, ele pode direcionar isto. Não com certeza, porque o pessoal da soja
também quer os mesmo incentivos dados aos pequenos agricultores. Mas não oferece
incentivo, não faz as unidades energéticas que o governo quer fazer, o que, no
papel, é até interessante. Você pensa numa unidade produtora lá no Centro Oeste
numa cidade de gaúchos produtores de soja. Parte dela vai produzir, além de
soja, também cana. A cana será exportada, direcionada para produção de álcool, e
parte da soja destinada para produção de biodiesel. Parte da produção de álcool
produzido pela cana será associada à soja para produzir o biodiesel, ao mesmo
tempo que parte do biodiesel, volta para as unidades agrícolas para moverem suas
máquinas. E a eletricidade gerada a partir do bagaço de cana volta para as
unidades agrícolas e o excedente de biodiesel e álcool é vendido para o mercado
externo e interno. No papel é interessantíssimo.
IHU On-Line - Como os produtores de oleaginosas podem manter a competitividade
com esses produtores de soja?
Francisco Alves - Esse é um tema muito difícil, porque depende fundamentalmente
de uma relação de preço que varia de oleaginosa para oleaginosa e depende de uma
relação de preço e produtividade agrícola. Eu acho que a matriz que temos
montado no Brasil beneficia os grandes produtores, e, portanto, você expor os
pequenos produtores, produzam eles o que for, a competir diretamente com os
grandes produtores, vai fazer com que eles "dancem", como historicamente "dançaram".
Até porque todas as grandes tecnologias foram geradas para o grande e não para o
pequeno. O que se tem, do ponto de vista do biodiesel, é que a soja é a pior
oleaginosa, perdendo para todas as outras, pela sua baixa capacidade de produção
de óleo. Porém, é a oleaginosa que o Brasil produz mais e tem uma enorme
capacidade de instalação para produzi-la, provocada pelas duas décadas de
expansão da soja Brasil afora.
Isso torna a soja competitiva. Do ponto de vista da produção agrícola e da
relação entre soja e óleo, o país perde para vários outros. Sem contar um outro
produto que está despontando como como uma possibilidade fantástica, que é o
pinhão manso. A Embrapa (5) vem investindo pesado no pinhão manso, na
domesticação do pinhão porque ele tem uma produção fantástica de óleo e é um
produto praticamente de unidade nacional. Existe o pinhão roxo no Brasil inteiro.
É preciso vê-lo com uma grande perspectiva. Isso ainda está em estudo ainda,
porque nunca se investiu, no Brasil, nisso, uma vez que aqui pesquisa agronômica
é só para produto de ric, como a soja. Investiu-se pesado em novos cultivares,
novas tecnologias, para a soja, permitindo sua expansão da região Sul para o
Centro Oeste. Quem investiu nessa tecnologia foi o Estado.
IHU On-Line - O que o senhor acha do ciclo do etanol e seus avanços na região
Sudeste do Brasil?
Francisco Alves - De um lado, ele é legal, porque o Brasil tem uma enorme
tecnologia e capacidade produtiva na produção de álcool, conseguida pelos
incentivos fiscais na década de 1970, então não podemos jogar isso fora, pois se
tornou uma moeda de troca importante nesse momento. Porém, esse setor sucro-alcooleiro
tem um enorme passivo social trabalhista e um enorme passivo ambiental. Portanto,
se a sociedade não pressionar nesse momento pode ser que a nossa produção de
álcool, que está sendo vendida como a solução para o aquecimento global, se
torne num grande problema ambiental e social.
IHU On-Line - Por que um grande problema ambiental?
Francisco Alves - Porque ainda se produz álcool hoje no Brasil com uma
devastação fantástica da natureza, queimando palha de cana e causando um
problema enorme nas cidades. Portanto, torna-se insustentável a produção de
álcool dessa forma no País. Eu acho que a gente devia aproveitar esse momento
para exigir melhorias nas condições de produção de álcool. Vai depender de como
a sociedade brasileira vai reagir à expansão desse produto. A gente vai querer
que se expanda o álcool para atender a demanda internacional da mesma forma como
que houve expansão de álcool nos 50 últimos anos? Com mão-de-obra barata, terra
barata e um forte impacto ambiental? Ou a gente está querendo uma outra coisa.
Eu acho que é hora de a gente colocar a expansão do álcool submetida ao controle
social e, portanto, a expansão do álcool que se dê de forma sustentável
socialmente, economicamente e ambientalmente. Ou seja, os três pilares do
desenvolvimento sustentável.
Notas:
(1) Roberto Rodrigues - Foi ministro da Agricultura durante o governo Lula.
Roberto Rodrigues é abertamente favorável à adoção dos transgênicos. Pediu
demissão do cargo em junho de 2006. Na época, Rodrigues justificou sua saída
devido a problemas de saúde de sua mulher, porém alguns deputados da bancada
ruralista argumentaram que o ministro estava desgastado no governo e deveria
sair para se preservar.
(2) Mamona - É a semente da mamoneira. Também conhecida no Nordeste brasileiro
como carrapateira, uma euforbiácea. O seu principal produto derivado é o óleo de
mamona, também chamado óleo de rícino. Possui diversos usos na medicina popular,
como purgativo e mesmo em aplicações atuais e tecnológicas, pois o óleo mantém
sua viscosidade em uma ampla faixa de temperaturas. É também utilizado como base
para o biodiesel.
(3) Dendê - É um azeite popular na culinária brasileira e no candomblé. É
produzido a partir do fruto da palmeira conhecida como Dendezeiro. Também é
indispensável na cozinha afro-brasileira. O azeite-de-dendê pode também
substituir o óleo diesel. Atualmente, é empregado na fabricação de sabão e vela,
para proteção de folhas-de-flandres e chapas de aço, fabricação de graxas e
lubrificantes e artigos vulcanizados.
(4) Pró-Álcool - Foi um programa de substituição dos derivados de petróleo.
Desenvolvido para evitar o aumento da dependência externa de divisas quando dos
choques de preço de petróleo. Com isso, de 1975 a 2000, foram produzidos cerca
de 5,6 milhões de veículos a álcool hidratado.
(5) Embrapa - A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, vinculada
ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, foi criada em 26 de
abril de 1973. Sua missão é viabilizar soluções para o desenvolvimento
sustentável do espaço rural, com foco no agronegócio, por meio da geração,
adaptação e transferência de conhecimentos e tecnologias.
Publicado en blog.controversia.com.br el 29 de
julio de 2008.